Ternuras

Tenho muitas ternuras pra contar. Palavras de sonho e sensações. Enchi uma pasta de euforias líricas, sóis desgarrados do ventre da poesia. Impressões brancas, douradas, carrego dentro em mim. E tenho, por cúmplice, a poeira das ruas, seus faróis, gente de todo lado, apressando passos, sujando muros, labirintos onde cabem faunas, melancolias.
Minhas ternuras, elas não me cabem. Cabem na noite, nos meus hinos. À cova da razão, minh’alma lavada em selva escava desejos na ventania. Dona de uns leopardos olhos, acesos na noite, fundo as raízes do meu sonho.
Tenho vilipendiado meus ardores. E, por isso, acumulado numa burocrática pasta a pressa d’alma insone, cheia de rubor. Ternuras muitas, recendendo chamas antigas, vastas dádivas da fome.
Sagrada ao rito, logro observar encantos na mão que pousa, feroz, letras foragidas da minha promessa de música.
Deus me quis aturdida e terna, repousada em versos bravios, maré alta; coisa acontecida em becos, açoitada pelo tempo.
Funda a incompreensão do meu discurso. Sentidos de abismos, versos, vertigens. Que víscera no visgo desse timbre? Modulo mansa nunca nula as minhas vísceras. Carrego o dizer como o destino infindável que abarrota meus muitos armários psíquicos, pastas da mente ecoando: abram alas, é vulcão.
Ternuras insondáveis. Teço, farejo na poeira das ruas, nos olhos desgarrados do ventre da poesia: sóis, leopardos, apressando passos na noite. Enchi uma pasta de ventanias.

2 comentários sobre “Ternuras

  1. Beta,

    Aqui já é noite. E venho te ler como quem espreita um conto ou cantiga de dormir para alimento da fome de sonhos.
    Então, cabeceiro-me deste teu texto.

    Sobre e intra tais pastas, as estrelas se debruçam.
    Também elas lacrimejam de ternura – e nós achando que elas piscam – incabíveis na noite.

    Também loucas que tu lhes conte do que te vai impregnando o dia.

    “[…]vastas dádivas da fome.
    Sagrada ao rito, logro observar encantos na mão que pousa, feroz, letras foragidas da minha promessa de música.”

    Aqui, paro eu de piscar!

    Lindo.

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