Ternuras

Tenho muitas ternuras pra contar. Palavras de sonho e sensações. Enchi uma pasta de euforias líricas, sóis desgarrados do ventre da poesia. Impressões brancas, douradas, carrego dentro em mim. E tenho, por cúmplice, a poeira das ruas, seus faróis, gente de todo lado, apressando passos, sujando muros, labirintos onde cabem faunas, melancolias.
Minhas ternuras, elas não me cabem. Cabem na noite, nos meus hinos. À cova da razão, minh’alma lavada em selva escava desejos na ventania. Dona de uns leopardos olhos, acesos na noite, fundo as raízes do meu sonho.
Tenho vilipendiado meus ardores. E, por isso, acumulado numa burocrática pasta a pressa d’alma insone, cheia de rubor. Ternuras muitas, recendendo chamas antigas, vastas dádivas da fome.
Sagrada ao rito, logro observar encantos na mão que pousa, feroz, letras foragidas da minha promessa de música.
Deus me quis aturdida e terna, repousada em versos bravios, maré alta; coisa acontecida em becos, açoitada pelo tempo.
Funda a incompreensão do meu discurso. Sentidos de abismos, versos, vertigens. Que víscera no visgo desse timbre? Modulo mansa nunca nula as minhas vísceras. Carrego o dizer como o destino infindável que abarrota meus muitos armários psíquicos, pastas da mente ecoando: abram alas, é vulcão.
Ternuras insondáveis. Teço, farejo na poeira das ruas, nos olhos desgarrados do ventre da poesia: sóis, leopardos, apressando passos na noite. Enchi uma pasta de ventanias.

A fim de versos

Em Setembro do ano passado fui convidada pela Leila Andrade para participar com um texto na edição da revista cultural eletrônica Diversos Afins, da qual ela e Fabrício Brandão são os editores, ou “leveiros” como mais inspiradamente definiram. Não conhecia a revista, que me encantou pelo esmero de ambos na seleção dos autores, enfaticamente poéticos, mesmo em prosa. A densidade e qualidade dos textos me impressionaram e continuam impressionando a cada mês. Contos, crônicas e poemas abraçam-se num maravilhoso exercício de desarrumação de gêneros e fruição estética. Também destaco a abrangência cultural do e-zine, reunindo críticas musicais, resenhas sobre cinema, ótimas entrevistas literárias, trabalhos fotográficos comoventes e sensíveis pinturas de inspirados artistas. Nessa última edição tenho a honra de fazer parte uma vez mais desse trabalho. Aproveito para mencionar o fato e divulgar a revista. Vale a visita.