Árido

Na dança rendeira da agulha, meus dedos cingem, ornam. São fios. E sangram. A costura no branco da folha. Virgens, meus dedos bordam. Desabotoam, e por isso desabrocham. Desenham a lápis, contornos, dobras.
Sangram, num retângulo cheio de vincos: páginas perdidas. Rematam, retalham, fiam. Porque é tempo de fiarem. Porque é tempo que dá liga, é tempo.
Meus dedos, que souberam, que fiaram outras histórias, desenvolveram, outrossim, o árido trabalho da espera. E esperaram. E fiaram – dessemelhantes tecidos. E cortaram. Meus dedos sangraram.
Cada légua de tecido que cosi – coser é o meu dom, desvesti-me de mim. Só em parte – as anáguas eram minhas.
Eu, que sou todas, mas sou só eu mesma, vesti metros do mundo que quase nunca me coube. Somos nós dois, hoje, a linha, a fibra.
Eu, que sempre vesti o meu dentro, vesti o meu fora.
“Tudo está vestido de solenidade e nudez”¹. É, Sophia, eu me vesti para poder ficar nua. Revesti-me das tessituras férteis das planícies, já que abismos sempre me cobriram.
Vestida de mundo, ciosa do desejo dos meus dedos, não fui, não voltei. Estive. Liguei. Uma bainha, um fecho.
E o meu coração, sem desfecho, ritmo do meu sangue, extensão dos meus dedos – que sangram -, o meu coração rajado de fusões está aqui, peça principal, modista da minha poesia.

(A poesia me conserta, e desconcertada, eu conserto a poesia.)

¹ Sophia de Mello Breyner, As Grutas.
Fotografia de Mira J.