enternecimento, oldies: sede (blogger)

Herança

Do meu pai herdei os olhos de poeta e a imaginação de sonhador. Do meu pai os cabelos, pernas, pés e melancolia. Esta ausência de tudo, distraída, e o sorriso maroto. Do meu pai herdei o amor de minha mãe.
Da minha mãe herdei a postura, o falar manso, a voz pausada e a maneira de vestir. Da minha mãe a ansiedade, o amor fecundo, o carinho imenso.
Síntese dos dois, surgi assim, meio poeta, meio menina. Tímida e sacana. Delicada, intensa. Carioca e mineira. Mar e montanha.
Dos dois o amor ainda adolescente, um medo avivado no olhar. Refreio, sublimidade, profanação. Uma ousadia tímida, mas ousada. Uma forma inaudita inaugurando a imensidão.
Por causa dessa mistura quis o destino ou Deus que eu fosse abstrata, metafórica, notícia velha, desde menina, memória. E grata eu sou pela confluência destes rios azuis que são meus pais, um meio anjo, outro pássaro. Este, coisa aturdida, aquele, flor em rubro instante.
A minha história é um pouco da trajetória deles. O meu ponto de partida é um ato de criação. Por isso invento meus dias, meus sóis de Van Gogh, por isso o meu arrebatamento ante as coisas que não existem, senão na imaginação. Amo o que foi, e o que está por vir. Meu presente é invenção dos dois.

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