Herança

Do meu pai herdei os olhos de poeta e a imaginação de sonhador. Do meu pai os cabelos, pernas, pés e melancolia. Esta ausência de tudo, distraída, e o sorriso maroto. Do meu pai herdei o amor de minha mãe.
Da minha mãe herdei a postura, o falar manso, a voz pausada e a maneira de vestir. Da minha mãe a ansiedade, o amor fecundo, o carinho imenso.
Síntese dos dois, surgi assim, meio poeta, meio menina. Tímida e sacana. Delicada, intensa. Carioca e mineira. Mar e montanha.
Dos dois o amor ainda adolescente, um medo avivado no olhar. Refreio, sublimidade, profanação. Uma ousadia tímida, mas ousada. Uma forma inaudita inaugurando a imensidão.
Por causa dessa mistura quis o destino ou Deus que eu fosse abstrata, metafórica, notícia velha, desde menina, memória. E grata eu sou pela confluência destes rios azuis que são meus pais, um meio anjo, outro pássaro. Este, coisa aturdida, aquele, flor em rubro instante.
A minha história é um pouco da trajetória deles. O meu ponto de partida é um ato de criação. Por isso invento meus dias, meus sóis de Van Gogh, por isso o meu arrebatamento ante as coisas que não existem, senão na imaginação. Amo o que foi, e o que está por vir. Meu presente é invenção dos dois.

De ser ave e mistério

Sei que um dia quis ser ave. E que de menina trago os olhos cheios de espanto. Perplexa ante o mundo que sinto pelas pontas dos dedos e pela profundidade do coração. Sei que essa ave, símbolo da liberdade, voou por aí. E que vem me buscar nas noites de sonho sereno, nas noites de lua, nas noites negras como o negro dos olhos que ostenta esse bicho lindo. É mais que um símbolo, mais que paixão, é a identidade de uma alma aprisionada a um símbolo, a um rudimento de alma, que é o que os bichos têm. Rudimentos cá e lá. Porque é inegável a afinidade que sinto com as coisas nascidas num silêncio de instante, de instinto. E o que se ouve da morte? O que se ouve da vida? O que se ouve dentro do homem, do bicho, dentro do mistério de Deus? Olhos cheios de espanto, olhos de perplexidade pelo mundo acometido. Olhos de acometimento. Escrevo o mistério da ave, e ela é o meu mistério, o mistério de um amor.

Pensamento insone

Sono em suspenso, madrugada quente. Suor nas idéias, pensamento insone. Lembranças remotas, semi-vividas, que não me trazem nenhum tipo de saudade, mas o desconforto de não terem tido desfecho. Nem materialidade, quantas vezes. Saudades tenho do meu ardor juvenil, confesso, desse suor que hoje sua novamente a face, acelerando as sensações, oferecendo-lhes textura, cheiro, semântica. Oferecendo-lhes poesia. Sim, saudades do gosto, do rosto, de antigos trejeitos, transeuntes das minhas ruas, ou bichos das selvas de mim. Ainda assim, sei que não trocaria de instante. Este o mais belo… Encontro no meu presente tudo aquilo com que sempre sonhei. Beleza, reciprocidade, afeto. A história outrora aguardada. Construo o que há de mais sublime na existência. Sou fiel a tudo isso, a eternidade desses sentimentos, ao tanto que me renovam, e também resgatam a verdade de menina, que sonhava o amor. Carrego um sem número de reticências, mas também vou fechando lacunas, acrescendo pontos finais. Abrindo parágrafos, preenchendo páginas de um branco tão pálido como eu, com o sol do amor que faz em mim. É (pra sempre) Verão.