Nascedouro

Sorrio pra manhã nascedoura. Tenho no rosto o resultado da noite sem sonho. E há tantas chagas nessa olheira secular. Há histórias de caminhos perdidos, de outonos sem testemunhas, e de primaveras só há pouco germinadas. É mistério este doer imaculado, sereno, quase uma conseqüência de viver. É um doer manso, dor de parto, porque cada instante é a vida. E não se traz ao mundo sem dor. É isto, portanto. Estou sempre trazendo ao mundo este eu mesma cheia de emoção. Vivo às vísceras, às vésperas de mim. Sou o que está pra acontecer e o que não serve mais. Sirvo pra sonho, pra paisagem, pra ventania. Sirvo pra poesia. “A poesia é o presente”, versejou Ferreira Gullar. A poesia é a minha inteira, de cada sorriso matinal abrindo as cortinas do mundo ao negrume da vaguidão insone. Sou esse eterno metaforizar-me. Sinto esteticamente. Consisto em criar. Minha existência é verbal, os caminhos do meu mundo são flores feitas de palavras. Meus jardins são frases inteiras. E a cada letra que nasce, revivo em mim a certeza etérea que justifica meu viver.