Vida canibal

Momento decisivo: a câmera dispara o presente, o coração dispara o amor. Me retrata em filtro azul, me espera dentro do mar, quer que eu mergulhe, que vá caçar a pérola. Mas hoje a saudade sangra, chora o existido. Hoje é ontem e amanhã. O que brilha no sorriso da primeira hora, turva na olheira lacrimejar da noite. É o esquecido que se ressente, porque toda novidade assassina. Mesmo que em legítima-defesa. Mesmo que por amor. É um jeito novo de fazer as mesmas coisas. Se olhar no espelho, pousar a mão no rosto enquanto reflete, se ajeitar na cama a espera do sono e da carícia do outro. E apesar de bela, a vida é um trator deslocando antigos caminhos, devorando algumas flores de percurso, sobreviventes, feridas. Porque afinal, é o replantio no solo do meu corpo, na terra de antigos abandonos, de amores esquecidos. Mas voltemos ao presente. Tudo caminha para o que sempre esperei. Então por que os olhos cheios de adeus? É que meu desatino virou discernimento. Meus gritos viraram afagos. Em tudo uma despedida. E eu me despeço. Eu ardo na fogueira do Tempo. Tragédias e devoradoras alegrias? De novo as viverei. Mas choro nesta estação, tanto quanto sorrio e encontro. A criança que pedia infinito, hoje é mulher que pondera, que não tem só utopias, tem metas. Ainda não sei se ela conserva os mesmos mitos, se se lembra de mim, se tem rimas, se fará poesia. Dormirá com a porta fechada ou aberta? Noto, pelo contrair da boca, que a sede de céu persiste. É um bom sinal. Noto, pelos seus olhos, que ainda conserva estados de chuva, que alaga, mas que ainda é sertão em seu nordeste. Sua lua ainda curva de mistérios, pálida e cristalina, num céu púrpuro. O estertor de lágrimas que só o silêncio escuta, permanece assim, indecifrado, surdo. A solidão é um bem e um mal-me-quer eternos. Mas a vida já não é uma ilha. Há pontes, mão com mão. E o coração renova sua batida. Tum. Feliz. Frágil, mas regozijado. Tum. Hoje que ninguém vê, eu beijo o ontem. Tum. O vento descobre lembranças atônitas. Tum. E o futuro me abduz em sua nave hi-tech. A cada passo, o descompasso de marchar pelas avenidas do tempo. Ruas nos meus pés, asas no coração. Uma saudade, um novo afeto. Toma lá, dá cá. Vida devoradora de presentes. Vida canibal. De passados ausentes, de futuros latentes.