O que fazer de tua redenção pessoal
que não se completa
tua insubmissão a agigantar florestas
a construir organismos
e o que quer que seja
dessa dor por um horizonte
teatral, inteiro, presente
onde teu discurso caiba
na simetria com a realidade
e não precisas tocar o âmago dos ausentes
e não precisas abrir as pernas aos tratores
tudo em ti é a morte dançante
a sombra que te acompanha
e permite o riso da manhã.

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Luzia

Deus está deitado
de costas para o crime
para tudo que criou
espécie de inércia
primeira ou museu
a estocada final
som estridente
de coisas nascendo
e estrelas morrendo
som que não contém
razão de ser
se não distender
sua massa gravitacional
pedra jogada no rio
do vazio, bastasse
uma antena de maior
amplitude
para entender as engrenagens
cifradas do crime perfeito
um lamento guardado
no fóssil mais antigo
da América
qualquer substância
sarcófago
um campo de invertebrados
diagrama de línguas extintas
um meteorito que luzia
uma mulher de treze mil anos
ardendo
à sua sorte.

2 de Setembro

Emudeço toda vez
que acontece algo
dessa magnitude
e lambe feito o fogo
minha língua

se cada homem é um museu
com seu tempo alinhavado
nas próprias entranhas

o Museu Nacional
com seus 200 anos
não nos aponta
qualquer esperança

no futuro
o aparato virtual
que jaz sobre
ossadas
sobre todo o lixo
que já nem se esconde

que nem chega a se projetar
o hoje se transforma
em cinzas

emudeço porque calculo
no coro que formamos
o que não virá

apagado da memória que se aparta

lambido pelo fogo que, se
pudesse, chorava

(num repente, minha voz é rescaldo).

Linha do tempo*

MUSEU INCÊNDIO NACIONAL
2 e 3 DE SETEMBRO DE 2018

Nesse instante a única luz que vejo
vem do fogo que consome a memória
desse agonizante país

a quinta da boa vista
era o meu passeio favorito
quando criança:
tanto pelas bolas gigantes
e coloridas vendidas nos jardins
como pela possibilidade
de ver dinossauros e múmias

o último presidente a visitar
o museu nacional
foi juscelino kubitschek

um país que não cuida de sua história
não tem condições de construir uma história

“deixem os historiadores pra lá”
prenúncio de uma profecia

a quinta, o museu e o zoo
foram meu quintal na infância
íamos pra lá sempre
e o caranguejo gigante, os dinossauros
as múmias, o meteorito eram sonhos
por causa do museu nacional
em alguns momentos sonhei
em ser arqueóloga
“pra encontrar múmias”
era um dos poucos espaços
na zona norte feito para as famílias
provavelmente, o primeiro museu
que crianças da minha geração
até agora frequentaram

no apagar das luzes de um governo
que gostaríamos de facilmente esquecer
irônica e tragicamente
apaga-se nossa memória histórica

com seguidos cortes de orçamento
desde 2014 não recebia
os 520 mil anuais para manutenção
2014! não é acidente, é crime!

ontem não foi um dia bom:
parte da família declarou voto em bolsonaro
(e eu não sei se eles entendem
que eu estou na linha direta
de fogo desse candidato racista
homofóbico, defensor
dos torturadores da ditadura)
por fim, o incêndio do museu nacional
na quinta da boa vista
uma das melhores lembranças
que tenho da minha mãe
ainda sinto sua mão segurando a minha

há pouco tive que dizer a mim mesma:
tome este café, levante esta cabeça
e sobreviva a este país

através dos rolos de fumaça que sobem ao céu
eu só consigo cruzar os dedos e pensar:
sejamos fênix, sejamos fênix em outubro

de todas as maravilhas existentes lá
incluindo luzia (o fóssil humano
mais antigo das américas, 13 mil anos)
apenas 1% estava exposto ao público
imaginem o tamanho da perda

não temos mais o museu nacional
todos os 20 milhões
de peças do acervo
já se foram

esse incêndio traduz aquilo em que nos tornamos

temos de defender a ufrj
quem deixou o fogo queimar o museu nacional
não pode usar o incêndio
para queimar o que nos resta

temer passa e o brasil fica
ou queima. foi o brasil que queimou
o museu nacional, não esse governo de merda
esse é o mais merda dos governos
todos sabemos, mas desde que mudei
pro rio ouço histórias
do abandono do museu nacional
e nem quando estivemos no poder
fizemos nada
queima. o governo passa
e o espelho é nosso
o abandono. o crime.

___

*depoimentos colhidos no facebook, numa tentativa de resguardar alguma memória ou o grito, a consternação sob cinzas. Para os desmemoriados do futuro e do presente. Era o que podia fazer no momento.

Gosto cada vez mais da minha cara manchada, do meu rosto maduro, das desconexões nas sobrancelhas, dos pontilhismos todos que criam essas saturações do eu. Encaro no espelho a prova viva de meu embaraço pulsante e já não tento dominar o desalinho de fios, pontos negros e brancos, amarelecimento, pus, marcas de expressão, veias saltando, olhos secos. Tudo impresso na pele que vem antes da técnica, ainda que fugidia, de dar às superfícies mortas a memória de uma organicidade, de confluir numa arquitetura de insólita duração, de se desmembrar entre vital e fantasmática.

Com sua temporalidade, a vida regula meu pensamento. Em sua hegemonia, a morte me dá tempo. Pareço sorrir a privações e privilégios, pareço inócua como aquilo que não se esgarça. A fragilidade da voz nos traços, das pontas finas, dos requintes e ditames da genética, da rouquidão nessa mesma perpetuação que um dia afunila tudo, movimento de cordame em cada ato que se presta a dizer, mesmo involuntário. Conforto nas ruínas.

A vida é facho de uma arquitetura
milênios de edificação do suspense
bordando vazios no recosto do assento.
Guardada chuva obsoleta
na decoração da sala
seu objeto esquecido.
Não são gestos
que avisam da trajetória
mas as fendas no peitoril da janela
o limite de cada superfície
o mistério que se esconde
sob este luar invertido em pleno dia.
Não basta saber o que sei
e olhar o que olho
e tocar o que nem sempre posso
recalcitrante desejo
de espessura oculta
e que no entanto engendra
este sonho maior, fugidio –
vigília, fundação.

Da gramatura de um céu
radical
da ancestralidade
dos polares
da vizinhança
das cores
das sementes
geminadas
de ser mais frágil
que eu, a te cuidar
do que não tem jeito
nem nunca terá
de um vento que retorna
à voz, obscuros
de ninguém
da sorte
do descanso
de saber respirar.