Ditado popular

As telhas exigem um falso andaime
um buraco coberto
um descompromisso

sobre nossa passagem úmida
as telhas nas coxas
naturalizam violência
no ditado empregado, também telha

ser cabeça sem telha
cabeça sem laje
ser só

a ausência de andaimes
quipás de casas
equipas de segurança

diz-se em lusitano
como esquecer

a força empregada escrava
nas coxas de mulher telha
tê-la repelido a passagem das estrelas

água de colônia
telha.

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Telecomunicação

Acessasse ao longo da topografia
o satélite que era
baldia de planetas
essa coisa invertida na comunicação
dizer da parafernália a centenas
cheia de vermes das primeiras errâncias
na órbita oracular
dos pesadelos

talvez a variante de uma nascente menos extremada
que o sol
talvez o elixir da verdade sobre cruzar sem sapatos
o asfalto quente da música
talvez governar a raia do que se é
lambendo os beiços da usura do desejo

e talvez morrer molhada cheia da constelação do deserto
nadando por entre os astros essa morte de órbitas mansas
e a Grande Expansão à espreita

acessasse, geoestacionária
isso que sói ser
quiçás quiçás quiçás
dentes rajados
e ideias em flutuação

construísse o mesmo postulado de entranhas
um pouco menos árduo, talvez.

Vidraça

Almejo a solidão
do outro lado
da fissura

vinco este rosto
ideográfico

tenho a língua cortada
cambista

em furta-cor
doendo itinerários

sou ente que materializa
as depressões do vale

que testemunha o correr dos trens
vazios

que não perfuma
um fio de estrada

almejo a fissura
nas rugas que entretecemos

observando o sopé das montanhas
o viés andrajoso das casas

o amor lá atrás
na grande confusão

onde nos movemos
e nos quebramos em primeiro plano

almejo a luz
no baixio das neves

invoco a tirania
das águas

sinto nas alturas
um idioma

que não há
só pestanas.

Ainda sobre o fogo

Nunca mais ousar fogo num poema.

Nunca mais deixar esse nó na garganta

me possuir

com a destreza dos que não têm tempo para a delicadeza

– nunca mais perder a juventude por delicadeza.

Desdizer a ordem das coisas que não acontecerão mais.

Embalar a vácuo

a dor

na seladora doméstica

congelar a carne

prenha da dor

para que não sofra embolias

pela migração de um corpo estranho

um halo no círculo venoso

na concretude do sangue

que medra os algozes.

No entanto

qualquer forma ainda estacionária

da matéria

é matéria

qualquer ausência

é presença impotente

da ilicitude do silêncio

no momento reverso

da justiça.

Trazemos um punhado oco

nas mãos

da possível pedra

lapidar

tão delgada

anterior a tudo

vinda da lumieira dos tempos

magmática

quando o archote

untado de breu

era o meio seguro

de dizer alguma coisa

por entre as giestas

ou qualquer designação botânica

que se encarregasse

do respiro

na paragem

frente à beleza tênue

de arranhar os significantes.

Consumação

Não é possível retroceder
não há lugar no solstício

nós engendramos
caos e carnificina

uma revolução
no corpo social determina

trabalho árduo e instantâneo
de reorganização:

o fogo não é a revolução
o fogo é o anzol

o fogo não é a pobreza
o fogo é o Estado

as tantas propagações
de abandonos cíclicos

pelo que não fez o fogo
pelo que fez a história.

Distopia

Deixar meus olhos vagarem outra vez pela dureza dos espaços

ressentindo o tom aquiescido das potências vistas

mas sem se deixarem cegar pela memória que arquiteta

sem se deixarem obscurecer pelo compadecimento de terem sido já pensadas.

Deixar meus olhos vagarem por dispêndios os mais diversos.

Sobretudo deixar vagarem meus olhos pelas plataformas de petróleo

compadrios, rejeitos de minério, armas tóxicas, balas ‘perdidas’

como certezas incineradas de um futuro posto.

Deixar meus olhos vagarem pela matriz indignada do presente sórdido.