Forma

Ficou um mar de sangue
Svetlana Aleksiévitch

O que tenho
o não saber
o que move
o que me desenha
o que o sofrimento petrifica
sem magia ou beleza
do que Aleksiévitch se apodera
do que Chalamóv fala
da imagem de um tempo
gigantesca vala comum
de utopia e inocência
da culpa tão terrível
de todas as histórias
ser um homem-pena
diz Flaubert
penso que me pesa
desejar como Svetlana
ser a mulher-ouvido.

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Roupa íntima

Só almejo ficar quieta e
espero o sangue vingar
o sangue da vítima o
sangue da mulher que
aborta o sangue do
pássaro absorto o
sangue do trigésimo dia
não há tempo de entender
a ira invertida é pano
pra manga: posso suar
posso me enforcar
virar pano de bunda
ou camisa de força
e vênus, não, me dê tempo
me dê a mulher que sou.

Paradise now

Um livro, qualquer objeto
de tempo tardio, imantação
para estranhar e conviver comigo

desprender o choro das grades
subir a escada em caracol
das ideias que amparam o limbo.

Não me sentir representada
pedir à matéria
que engaste o presente

com a palavra-estrategista
das suturas
e das demoras –

contínuas serpentes
em maçãs envene-
nadas.

Alegações

O poema fura o silêncio.
Esgota um projeto de nação.
Faccional, entope os bueiros da cidade.
O poema é esse gosto pela dinastia
falida das palavras alinhavadas pelo fel.
O poema explode a metáfora
mas insere no ritmo sua tensão maior.
É, sobretudo, iminência.
O poema perambulando na quadra da morte
desafiando o buraco causado
pelo som, vibrátil, concêntrico
dizendo-se ilharga das folhas
e percepto vegetal.
O poema é você de frente, de costas
pro silêncio continental
de um quarto de século
no spacatto e no sopro
de um bailarino enfurecido
que se tumultua ao sabor do gesto –
o poema não presta e você não presta
mas tudo nele é movimento: te concerne e te preza.

Ganga

Silenciosa como os ventos pagãos
mais silente quando sedimentada
urde um segredo de urze
vislumbra a maioridade da brotação.

O que sonha é uma vastidão de cavalos.

Feliz, cavalga.
Um segredo que ela sabe inchar
no cardume de tudo, se vê crescer
como rio velho e sujo.

Sozinha, Ganga movimenta o mundo.

Quase avião

O homem nissan
com travas elétricas
botox e clareamento dental
desejava comprar um carro
para colocar no rosto.
Quero um design neoliberal, disse
quase sem linhas
que supere o futurismo dos 80
quando nasci, meu estilo ainda era
pessoal, eu um menino
e não um boneco.
Foi prontamente atendido
na sala de cirurgia
pagava à vista, como da primeira vez
em que agendou o test drive
esquecendo sua primeira expedição
numa Brasília muito amarela
saiu de lá com mais de cinquenta
sensores inteligentes.