Fenomenologia

Não há nada sendo dito dentro do costume.
O hábito é um império extinto
e sem arejamento.
O costume não tem irmãos
mas correias que prendem Anaxágoras
ou as mãos do homem que pensa
e pensa porque tem mãos
desfeitas para o hábito.

Família

Na corrente ininterrupta dos rios
em seus incontáveis afluentes
transportando a premissa dos pés
ao viés de uma secura fortuita
porque voar é limitadíssimo
a quem se faz da intempérie
e canoas coroam de falares indomáveis
a umidade que é a única certeza destas terras
desfeitas em águas
seus bichos paralelos
seus casos obscuros
botos, suaçunas, serpentes
lendas e manhuaçus
por ora é preciso estar longe
pra sentir a multiplicidade vagante
da correnteza anônima.

Agora é que eu vejo
que a vida se fechou sobre
uma cadeia de acontecimentos.
Isto, chamo de autoconsciência
estar fora do dentro
do próprio rizoma.
De toda forma, conectada
por lapsos mnêmicos
caos e agenciamentos.
Vou contratar uma empresa
pra me levar de volta.
Geralmente, o city tour
sai de graça.

I.

Diálogo com o prefácio para a edição italiana

Deleu
ziana
mente
entro
na usina
anti-edípica
deliram
as raças
as tribos
os continentes
meu gênero
porém
não é
contingência.

II.

Anticoncepção

Subscrevo em DNA
a primeira mutação descoberta
o segundo sexo lido
desarrimo de classe
caldo ativista.

O presente é espesso
C677T heterozigoto
não posso com pílula
tampouco abortar.

III.

Serenamente saber

Não há réplica, tréplica ou
síntese, há
as dez lições sobre Hume
sobre o banco azul
que faz as vezes de criado
mudo
criações-mundo
um naco de céu
as armas como as paixões
contundentes.

Não bastasse a lei ser um sistema onírico. Um tecido social. Uma costura orgânica. Não pudessem operadores da legalidade se haverem com operadores de crédito. Não quisessem os marketeiros. Não existissem offshores. Não fosse o punitivismo. Fosse se desconstruir ao desencadear do outro. Propusessem sistemas retributivos ao diálogo. Olhassem nas retinas flutuantes e fossem inversões generosas.

A manhã faz das informações, narrativas. Os raios descrevem das fisionomias, dos passos, dos desenhos dos corpos um processo lento e um rompante. Um homem parado contra o sol – se entrevê a bengala. Resiste aos murros do policial, à noite e à acusação. Sua idade nada revela, os fios de cobre nas mãos passeiam todo o dia. Em sacos, restos, na bebida e na queda ao chão. Agora há algo de único em seus ossos. Os movimentos já não serão os mesmos. Resiste. Por duzentos reais/mês. Pela manhã que desenha esta tarefa urgente de prosseguir.

Pelo olho do fotógrafo com maquinário precário do smartphone. Todo um canto assombrado recolhe galhos de árvore, sons inanimados, natureza e a clareza exuberante.

Quantos saem de casa arrolados pelo calor? Outros aguardam por justiça e proteção social. Confinados. Alguns escrevem neste instante: petições, poemas, ensaios, status nas redes. Se encarassem a contraluz – silhuetas e pequenas notícias. O uso desmedido do plural e estes subjuntivos.

A garota aguarda a loja abrir e não olha pro policial que novamente vem pra desbancar o velho brabo que há vinte anos está ali: colhendo os seus restos e deixando os carros prosseguirem. Acusado de roubo, nesta altura. Conferem a câmera de segurança. Ele na mesma sala onde existiu o dinheiro. O homem lixa as unhas.

Alguém que tenha roubado, forjado e permitido. Não bastasse a lei ser um sistema onírico.

Pedir que se apaguem as feridas
sucumbir ao escrutínio
de grotescas reprimendas
como se pensar fosse
o artefato pueril
de acumuladores de dinheiro
da pretensa conquista
de quem surgiu com todas as chances.
Vamos retroceder às tristezas de todos
mas se dores são geradas em virtude
da virtude de alguns
deixar a súplica e o diálogo
já ausente se descumprirem
do papel de divisor de águas
e de tratados semi-milenares
– tordesilhas são cicatrizes
na dor inestancada.

Rodovia

Eu era a criança aturdida com o verde, o que me compensaria
na cadência suave das árvores nas encostas
e de tempos sucessivos e distantes em outras paragens.
Quando a estrada esvazia, restam os caminhões
pequenos desentendimentos como pontos
equidistantes na nódoa dos séculos
ameaçando a pertença das crianças distraídas na velocidade.
Rodovia, poema, palco de elipses
perpassam desgraças mudanças casas isoladas.
Na estrada, assumem a franqueza do insondável
imagens com que contornar múltiplas cegueiras
o desenho de certas árvores, frágeis filigranas
pensamento desmentido, roupa de não caber.
Eu, a criança de braços esticados olhos confundidos
do verde-heresia da viagem
criança de cidade, minguada pela imensidão de prédios e luzes
frágil e oitentista, século vinte.