Poética

O fato em torno do qual
a carcaça de baleia da palavra
morre na praia
depois de nada, nada
nadar.
Criar o fato em torno
do qual suspendemos
o viveiro da palavra
pleno de animais vivos
ou sementes.
Assim, seguimos
transplantando um corpo de
baleia numa sementeira
aguando de vontade –
algo que dará frutos?

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Que o vento aprume a lógica
quando o sentido do gesto for
abstrato demais para o toque.

Só no invisível a matéria se refaz.
Articular uma comunidade do espanto
a confluir para onde o rio vai.

Devolver à natureza a memorabilia
do concreto e fincar diretrizes
no gosmento campo das ideias.

Forças motoras
imediatas
motoras
sou-lhes fiel
juventude
raiz
e memento
permaneço
na guarnição
das heras
e das acácias
e promontórios
e amendoeiras
e do levíssimo
e tonteante ar
soerguido
na vertigem
e no segredo
viajar, fácil
entre as duas
pernas ser
o mel e a
engenharia
a geometria
agreste
do perímetro
aberto.

Fraga

Eu sei o que as pedras querem
eu sei porque as pedras ferem

e se transfiguram nas mãos incestuosas
e permanecem obscurecidas ao rompante

de cada fruta madura

se acham no direito de afundar as mãos
irmãs em caos e carnificina

desregradas ao sabor da violência
na dilapidação real da vida

(criamos fundamentos sobre o imortal)

escalei a cicatriz do rio
espírito rebelado
ingovernável

espírito velho do oceano –
desgraçadas mãos ou pedras
entre as hordas de peixes e tramas invisíveis.