Sensitiva

Poema na pauta mediúnica
tangendo tiros de escopeta
como se um Roberto Piva
estourasse meus tímpanos.

Fauna

O espelho faz câimbra
na natureza

algo morde a silhueta
da cambraia

como se fosse pele
ou bicho da seda.

Flora

Entre imagens macerando
no cérebro da atmosfera
da saturação

economizando no rastro
das açucenas

lendo a luz um do outro.

Tudo com detalhes

Talvez, deseje depor todas as coisas
ordenar veias e pensamentos
diluir o quarto em dedos
soldar teu sono com o vermelho
invertendo o que destinou por boa gente
tudo com detalhes que, de uma hora pra outra
me atreveria a abandonar por rotinas
que alguém chamasse gastas
pés assentados em Cochabamba
pés viandantes por Compostela
pés que não se desviam de ser pés.

I.
Um sentimento embrutecido na dobra da palavra. O emudecimento da circunstância até sua transubstanciação. Um ritmo na peculiaridade da fala. O pensamento não originário determinando amálgamas. Poesia, pura conflagração.

II.
A palavra me dá a interioridade do pensamento. O pensamento me transporta à nudez da palavra. A imagem fornece a desmedida do homem. E o entorno é a memória plangente das nuvens, misturada ao corpo-grito do mundo. O resto, eu sei, silêncio.

Decisão

Valha-me ser mulher
ser mulher e navalha
no rasgo das coxas fremidas
no tampo, no acinte da mesa
chamar ao passado mesa
o que quer que se acumule
nesse pedaço de nome
de vidro e madeira
nesse deslugar de falo
torvelinho de girar, quebrar
papeis e carinhos
incumbir à puérpera
sua espécie ebó
nascendo nas encruzilhadas
podendo ser tudo
costumeiramente nada
valha-me que ser mulher
ser mulher é navalha.

Te escrever
uma rosa suprema
o rosto profundo de flor
um crisântemo aceso –
onde se chegasse pelo cheiro
reverentes, os joelhos dobrados
de cansaço. Só as imagens
retorcidas do cansaço. Os joelhos
leves, abatidos pela sombra.

A força intocável de samurais a dor do tempo o eco de orvalhos descendo de pedras antigas onde tudo dorme antes do grito.

Um crisântemo aceso, um rosto profundíssimo de flor. As coisas se interpenetrando no escuro dos tempos, se sabendo no cheiro do escuro: que vestígio o dos passos?