Samsara, 2

Pequena e amortecida
uma fagulha do sertão
a semente se enovela
caos e cuidado
kamikaze ao avesso
quase ingressa
no paradoxo –
tremular ao sol
cheia de febre a
semente de si.

Anúncios

Samsara

São as raízes impregnadas das diretrizes da paixão
emulam no seu conforto de terra o desacerto humano
se com isso vibram umas às outras
às dispensas de saber
o emudecimento da forma
no rastilho incongruente
faz-se do erro
a palavra exata
a palavra anoitecida
a palavra que costuro há anos
o mesmo projeto
simbiótico da semente.

O cambista sem língua

“Não se sabe se chegou a seu destino ou se morreu no caminho”
Bahiyyih Nakjavani

Proferir sons ininteligíveis
contra rochas desfiguradas
afastando jinns e demônios
dos ciclos de samsara.
Deixar a caravana partir
com as silhuetas do deserto
na iminência dos bandoleiros.
Revisitar um beduíno
ora em ruínas
mensageiro do poço
lançado às pedras.
Expurgar com fogo
as escrituras sagradas.
Assistir à tempestade de areia
ranger sua língua sem alforje
no fundo dele mesmo.

Secto

Porto a voz em torno de uma ideia

esqueço a multiplicidade de corpos habitando logradouros tão diversos

não há tabela das diferenças periódicas

se o que eu construo são muros em vez de – sim, barricadas, quando necessário – pontes

se o que eu afirmo só serve aos meus

a mim interessa a mim.

Átropos

É sempre a última vez
que um camelo passa pelo buraco
de uma agulha
que um raio cai num mesmo lugar
que o século XX acaba
que ditaduras florescem
que Hitler, Mao, Idi Amin
se tornam meras figuras históricas
que um mito é apenas um mito
é sempre a última vez
que ele retorna, pródigo
ou que 20 anos depois
já não encontra ninguém
[como seu nome]
e que apenas imagina
parcas, mulheres tecelãs
bichos domésticos
que lhe reconhecem
e adoram
é sempre a última vez
[ou deveria ser]
que homens escalam
cercas eletrificadas
e querem reatar algum passado
com o facão
e esperam sempre
por mulheres tecelãs
ou disparam
disparam
disparam
disparam
nove vezes
contra a possibilidade
de a última vez ser, enfim
a vez derradeira.