Torre

Sendo um sistema de freios e contrapesos
suponho, do poema, certa infâmia
institucional, a burocracia de romper
com fissuras que são próprias do poético
com galhardias que saturam o poema
a seu tempo, consumido em desforra e vaidade.
Sendo um antissistema, o poeta trabalha contra si
orgânico, fruindo de operações simbólicas e bioquímicas
interdependentes, mas ao sabor da contingência.
A vida não separa joio do trigo, e assim sorvemos
o gosto por binômios, contraditos, distinções.
Sabemos aprumar pesos e medidas, com acuidade auditiva
e baixa interferência espiritual.
Formalizamos o maior inimigo com a sensatez da gramática
e fomentamos no rosário das margens um novo bispado.
Alinhamento constante daquilo que, por princípio
carrega o poema no manto e manda às favas a certeza
de se apoiar em tensões bem fundamentadas.
Acena aos objetos consagrados
letra por letra, fio por fio
sua iconoclastia, santa e bárbara.

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Nas camadas vulcânicas da palavra

Posfácio | Uma casa perto de um vulcão

(Teofilo Tostes Daniel)

Ensaio Aberto – Teofilo Tostes Daniel

Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os…

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Trabuconocudonosor

Uma ponte para o passado
um porte de armas para o futuro
o presente um salto no espaço

da distopia –
em viscoelástico
um ministro em travesseiro
esplêndido.

Um deus envasado
engarrafado pronto
para consumo

das familias de bem
acólitos anônimos.

Mercadores do templo
filhos do enxofre
o enxofre que serve
para limpar, para pintar

os danos causados, os pais
da chuva ácida.

Falsas notificações de crime
snipers na black friday murder

engole esse câncer, terrorista
o mundo é um lugar lindo

cativo dessa barra
que é gostar de fake news

na Barra da Tijuca.

No morro o funk continua, como se não houvesse amanhã
nem ontem. Posso morrer a qualquer momento.
Sinto o coração disparar numa disritmia inconsequente.
Se ainda fosse taquicardia, incongruente que é.
Mas essa vontade de ser exorcizada, como o título da canção
que também nomeia o que acontece ao meu peito:
o peso das coisas brutas e reais, não as sólidas
como pedras ou espantos, que se tateiam com mãos ou halos
mas as coisas de ninguém
esse ódio sortido em falta de bom gosto.
Falo de pessoas infelizes cujos corações
já não batem, pois não é possível
ter de bater panelas para que ouçam seu corações.
Não é possível se ensimesmarem nessa catarse
ignóbil, no desmantelo, amesquinhadas
abrutalhadas, vis. Meu coração não bate por elas
bate a 44%. Se eu viesse a morrer amanhã
mas amanhã eu não morro.

Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018) | Vídeo 6

A casa é um pântano, nada ensina que a casa é um pântano

Último vídeo da série de vídeo-poemas gravados para o lançamento do livro, que chegou ontem da gráfica, há um mês exato da divulgação do primeiro vídeo. Ontem, também, tive a alegria de ter dois dos meus poemas lidos pelo querido Eduardo Lacerda, editor da Patuá (um dos poemas também foi gravado por mim e está na playlist do meu canal lá no youtube). Nestes tempos, precisamos sobremaneira dos encontros, os encontros que se dão por todas as vias do afeto: aqui, nas ruas, nos livros, nos corpos. Meu afeto e gratidão a todos que me ajudaram a compor esse livro (Fabiana Turci, Teofilo Tostes Daniel, Marisa Tostes Daniel, André Felipe da Silva, Caio Resende, Leonardo Mathias, Ricardo Escudeiro, Eduardo Lacerda), direta e indiretamente, desde as experiências fundantes, até o desdobramento no que veio a ser Uma casa perto de um vulcão. Espero que ele se reverta em pouso, aspereza, diálogo, silêncio, dicção a quem se articule com ele. Estarei aqui, para ouvir e tecer. 

Apud Joyce

Existe algo na dimensão de amar
e mudar as coisas de lugar
existe algo tamanho.

Que me interessa mais, mudar
para perto das coisas, o coração
perto e selvagem.

Existe algo perto e selvagem
entre musgo e cavalo
ponte e queda

que muda e muro
e vira e declive

entre palavra e música
Belchior e Clarice

que acena e canta
um rosto um repto

sucesso
fracasso

alguma curva no caminho
segurança irrefletida de uma fera

só. abandonada. feliz
perto, muito perto do coração

mudando e amando as coisas
que interessam mais.